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22 de nov de 2011

Antes de Charles Miller, a bola já rolava há tempos no brasil

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Futebol a.C. (antes de Charles Miller)

Antes da primeira bola oficial e das regras, a redonda já rolava havia tempos no Brasil

Por Celso Unzelte / Ilustração: 1 mais 2 | 28/10/2011 12h55
“Numa tarde fria de outono em 1895, reuni os amigos e convidei-os a disputarem uma partida de football. Aquele nome, por si só, era novidade, já que naquela época somente conheciam
o críquete.
— Como é esse jogo?
— Com que bola vamos jogar?
— Eu tenho a bola. O que é preciso
é enchê-la.
— Encher com quê?
— Com ar.
— Então vá buscar, que eu encho.”

Charles William Miller (1874-1953), em depoimento à revista O Cruzeiro, em 1952


Paulistano do bairro do Brás, filho de pai escocês e mãe inglesa, Charles Miller havia trazido duas bolas, uma bomba para enchê-las, um par de chuteiras e um livro de regras de football da Inglaterra, onde estudou dos 10 aos 20 anos, entre 1884 e 1894. Mais precisamente no dia 14 de abril de 1895, na Várzea do Carmo, nas proximidades das atuais ruas do Gasômetro e Santa Rosa, em São Paulo, ele tratou de organizar aquele que é considerado o primeiro jogo no país.
Quase todos os “amigos” citados por Charles Miller tinham, como ele, origem britânica. Eram dois times, formados por funcionários da São Paulo Gaz Company e da estrada de ferro São Paulo Railway Company, que acabaram ganhando por 4 a 2. Antes deles, porém, se não havia futebol (pelo menos não o futebol organizado, com obediência às regras e equipes constituídas para a disputa de competições regulares, mais próximo do que conhecemos hoje), é certo que já havia bola.

O futebol foi organizado na Inglaterra, em 1863. Acabou exportado por britânicos a serviço em outros países - no Brasil, principalmente aqueles ligados à construção de ferrovias. Ou, ainda, por pessoas que voltavam de seus estudos na Europa, como era o caso de Miller e dos introdutores do esporte nos principais estados brasileiros. Mas, antes mesmo da chegada de Cabral por aqui, os índios já brincavam com uma bola, provavelmente revestida de caucho, árvore amazônica da qual se extrai o látex, também utilizado para fabricar borracha. Era rebatida com as costas, às vezes deitando-se. No início do século 20, o marechal Cândido Rondon documentou entre os índios paresis um jogo chamado zikunariti, em que a bola era feita da borracha da mangabeira e a maneira de jogar, às cabeçadas.
Por volta de 1864, exatas três décadas antes de Charles Miller retornar ao país, e já no ano seguinte à própria oficialização de suas regras na Inglaterra, o futebol teria sido exibido tanto no Brasil quanto na Argentina. Marinheiros franceses, holandeses e particularmente ingleses, dos barcos mercantes e de guerra que atracavam no litoral do país, foram flagrados jogando entre os capinzais.


Daquelas peladas iniciais, duas entraram para a história. Uma nas praias cariocas, em 1874, exatamente no local onde em 1922 seria construído o famoso Hotel Glória. A outra, em 1878, disputada por tripulantes do navio Crimeia, em frente à residência da princesa Isabel, na rua Paysandu. Em 1875, no campo do Club Brazileiro de Cricket, no Rio, enfrentaram-se empregados brasileiros e ingleses de empresas de navegação, docas, cabos submarinos e bancos. Em 1876, no campo do Rio Cricket and Athletic Association, em Niterói, funcionários das companhias City e Leopoldina Railway Company também jogaram.
O mesmo aconteceu em 1882, quando um tal mister Hugh teria introduzido o jogo em Jundiaí entre seus funcionários, operários brasileiros e ingleses da estrada de ferro São Paulo Railway. Paranapiacaba, distrito da cidade de Santo André, distante pouco mais de 50 km da capital paulista, também reivindica para si o título de Berço do Futebol Brasileiro, a ponto de manter até hoje aquele que teria sido o primeiro campo de futebol do país com medidas oficiais. A localidade surgiu como centro de controle operacional e residência para os funcionários da companhia inglesa de trens São Paulo Railway, a estrada de ferro que possibilitava o transporte de cargas e pessoas do interior paulista para o porto de Santos, da qual o próprio Charles Miller tornou-se funcionário.

Em seu livro Visão do Jogo - Primórdios do Futebol no Brasil, o historiador José Moraes dos Santos Neto mostra que, entre 1872 e 1873, o padre José Mantero, professor do Colégio São Luiz, de Itu (SP), mantido por jesuítas, teria apresentado a bola de futebol a seus alunos na hora do recreio. Antes de Miller, ele teria trazido da Europa bolas, do tipo conhecido entre os padres como “bola inglesa” ou ballon anglais, feitas de câmara de ar, depois substituídas por bexigas de boi.
No livro, o jornalista José Geraldo Couto afirma: “Os primórdios do futebol no Brasil estiveram sempre envoltos nas brumas do mito, de onde emergia a figura impávida e bigoduda de Charles Miller, herói meio inglês, meio brasileiro, que teria trazido da Europa uma bola embaixo de cada braço e ensinado sozinho o esporte bretão aos nossos compatriotas. Tal gênese servia como uma luva a determinada visão das origens do nosso futebol, como produto da ação voluntariosa de uma elite em contato direto com as fontes britânicas do esporte”. Tudo teria começado com uma solicitação direta do imperador dom Pedro II, que julgava necessário realizar mudanças no ensino público. O deputado Rui Barbosa elaborou um parecer nesse sentido na Câmara do Império. 

Um dos capítulos, que tratava de educação física, defendia a introdução de “exercícios ao ar livre”. Santos Neto conta que “as melhores instituições de ensino do país decidiram enviar ‘embaixadores’ a vários colégios europeus”. Um desses “embaixadores” foi o padre Mantero, que escolheu o futebol para ser praticado na escola. Entre 1879 e 1881, o Colégio São Luiz enviou seus professores em visita à Europa e lá eles conheceram de perto o futebol então praticado na Harrow School, Inglaterra.
Futuro reitor do colégio, Mantero estabeleceu, entre 1880 e 1899, o conjunto de práticas esportivas, entre as quais estava o futebol. Porém, até 1887, o que padres e alunos jogavam era uma forma conhecida como “batebolão”. Nela, atirava-se a bola contra a parede, à maneira dos estudantes do tradicional colégio britânico Eton, sem a formação de 2 equipes ou o uso das regras da International Board.

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