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29 de jan de 2012

Renascimento, o berço na Itália

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O afresco 'A Escola de Atenas', de Rafael Sanzio Foto: Getty Images
Apesar do Renascimento, entre os séculos XIV e XVI, expandir-se para várias regiões e reinos da Europa Ocidental, suas raízes mais profundas encontram-se no solo italiano. O historiador V.H.H.Green (in 'Renascimento e Reforma: um estudo da história européia', 1952) tratou de fazer um levantamento das condições culturais e sócio-econômicas da Itália daquele tempo para determinar de que modo elas induziram ou alimentaram aquele período que foi considerado um dos mais belos e originais da Cultura Ocidental em todas as épocas.

Os monumentos
Mesmo que grande parte do acervo arquitetônico dos tempos romanos estivesse reduzido à ruínas e a antiga capital do império se encontrasse em estado lamentável, por toda parte que os italianos andavam podiam facilmente verificar a magnitude das obras do passado bem como a proporcionalidade e beleza com que foram concebidos pelos arquitetos e artistas da antiguidade clássica. Ainda que se encontrassem viadutos, termas e teatros semi-destruídos em diversos lugares da Europa (e mesmo no Oriente Médio ou no norte da África), nenhum outro país se lhe igualava na quantidade de construções abandonadas que serviam como testemunho da grandeza do império. Naturalmente que a simples exposição deles ao ar livre servia de permanente fonte de inspiração para qualquer artista sensível.

Também se somou ao crescente gosto pelo clássico que tomou conta das cortes e das corporações de oficio italianas, a ojeriza que as elites passaram a ter da presença de uma outra estética, a gótica, gerada tardiamente pela invasão germânica dos séculos V e VI.
Pode-se então concluir que muito do impulso em direção ao restauro do passado greco-romano atendia a um anseio ¿nacionalista¿ ou ¿patriota¿, oposto à tutela que uma monarquia germânica exercia sobre a Itália desde a fundação do Sacro Império Romano-Germano, no século X. De certo modo as memoráveis ruínas serviram como armas para que os italianos recuperassem a sua identidade perdida, sufocada pelo aluvião bárbaro dos tempos das invasões.
O humanista, arquiteto e teórico da arte Leon Battista Alberti sentia-se herdeiro do patriciado antigo, dos que haviam sido 'os donos do mundo' na época áurea do Império dos Césares, período de esplendor que jamais deveria desaparecer da memória dos itálicos.
A importância de Bizâncio
Neste afã de livrar-se da presença dos godos - materializada nas catedrais e prédios góticos -, o pêndulo estético das elites italianas voltou-se então para o Império de Bizâncio, no sentido de recompor a antiga parceria cultural que caracterizara o mundo ocidental pré-cristão, como que há reproduzir o tempo em que Cícero tomava lições de oratória nas ilhas gregas, ou que Julio Cesar e Otávio, e até mesmo Nero, realizavam viagens culturais pela Grécia em busca de sabedoria e conhecimento. Ou ainda, quando os patrícios romanos passaram a importar sábios atenienses para educar seus filhos.

O ativo comércio que Veneza mantinha com Constantinopla e áreas circunvizinhas foi a porta que se abriu por onde começaram a chegar a Itália os sábios bizantinos carregados com manuscritos de Platão, de Aristóteles ou de Euclides. Caso de Manoel Crisoloras, considerado o patriarca dos tradutores do grego, e que após lecionar em Milão e Pávia, abriu escola especializada em Florença. Sendo seguido por outros sábios bizantinos como Theodoro Gaza, Jorge de Trebizonda e João Argyropoulos, que se exilaram definitivamente na Itália.
Esta presença ilustre provocou um verdadeiro furor pela tradução que visava à superação dos anteriores volgarizzatori, os vulgarizadores que existiam desde a baixa Idade Média.
Inúmeros humanistas, tais como Coluccio Salutati, Lorenzo Bruni e Giovanni Boccaccio, lançaram-se pacientemente na dura e erudita tarefa de reproduzir para o latim as palavras de alta sabedoria deixadas pelos pais da filosofia e da ciência grega.
Esta aproximação não se limitou ao campo da cultura. Esforços foram igualmente despendidos para que houvesse uma reatação entre católicos e ortodoxos, anulando com Cisma do Oriente, a infeliz separação das duas igrejas cristãs que ocorrera no século XI.
O Concilio de Florença, patrocinado por Lourenço e Cosimo de Médici, chamado de Concilio Geral das Igrejas Ortodoxa Grega e Católica Romana, realizado entre 1439 e 1445, sob os auspícios do papa Eugênio IV, tinha como intento voltar a unir o Papado Romano ao Patriarcado de Constantinopla. (todavia, a fratura entre ambos tinha deixado incuráveis cicatrizes que impediram o sucesso da delicada operação).
(*) Cícero tornou-se uma figura exemplar para os humanistas do renascimento, virou um ícone que era invocado por eles a qualquer momento, fosse para atender as polêmicas literárias ou filosóficas.
O sucesso econômico 
Duas cidades a beira de rios e duas às margens dos mares, Milão e Florença, Genova e Veneza, formavam o quadrilátero da prosperidade da Itália durante a Renascença. Nenhuma delas possuía população superior a 100 mil habitantes, mas tinham energia e disposição suficiente para capitanear a liderança econômica da península como tino para estenderem seus interesses tanto para o coração da Europa (em direção às cidades alemãs, francesas a flamengas) como para Constantinopla e o restante do Levante.

Dedicavam-se ao comércio de luxo (seda, brocados, âmbar, especiarias, ouro e prata) como às atividades que atendiam o consumo cotidiano, como têxteis (Florença, além da Casa dos Médici, foi um poderoso centro lanífero). Veneza também acolheu uma formidável indústria naval para dar sustento ao seu império marítimo que se estendia pelas ilhas gregas e alcançava vários portos do mar Negro.
Tal situação gerou uma burguesia pródiga, sequiosa de ostentar sua posição de mando e desejosa de preservar-se pelos tempos através da cultura e do patrocínio das artes. A competição entre as diversas cidades fez a glória dos artistas da época, muitos deles cobiçados por várias cortes que os prodigalizavam com recursos monetários e prestígio social.
Ainda que a Itália não gozasse de unidade política - era uma colcha de retalhos com inúmeros estados independentes -, sendo este o maior lamento dos seus intelectuais, de Petrarca a Maquiavel, ela liderou as principais inovações bancárias e financeiras (nota promissória, letra cambial, cheque, etc.), bem como acelerou a monetarização da economia medieval, tornando-a habilitada para a prática mercantil em larga escala. Nada havia no comércio internacional da época que não passasse pelas mãos dos italianos.
Os humanistas 
Não haveria Renascimento sem a existência na Itália de uma casta de humanistas, integrada por teólogos, sábios, cientistas, escritores e poetas que consagram larga parte das suas vidas a encontrar textos antigos, revirando as bibliotecas dos mosteiros e das igrejas atrás daquelas páginas que consideravam sagradas.

Homens devotados ao conhecimento e à tradução acreditavam que suas existências se justificavam inteiramente quando, esquecidas numa gaveta ou numa prateleira, se deparavam com cópias há muito desaparecidas de autores ilustres. Escritos de quem havia vivido de mil a mil e quinhentos anos antes deles.
Vocacionados para a erudição, com paciência beneditina - como foi o caso de Poggio Braciollini, um caçador incansável de manuscritos -, esmiuçavam os pergaminhos à luz de velas para beber-lhes a sabedoria como a um licor precioso. Não só isso, Petrarca conclamou os príncipes do seu tempo a que educassem seus filhos 'no estudo honesto' e não mais na 'barbárie das armas', preparando-os para um mundo dominado pelas palavras e pelos livros e não mais pelas espadas.
Quanto à habilidade deles, pareciam-se com aqueles deuses orientais com múltiplos braços e mãos. Eram homens dotados com diversas qualidades, habitando em cada um uma diversidade enorme de talentos que permitiam que se exercitassem simultaneamente nas artes plásticas, na arquitetura, no urbanismo, e nas ciências da época, sem omitir-se o gosto de muitos deles para com a astrologia.
Formaram no Renascimento um embrião do que mais tarde viria a ser a casta dos livres-pensadores, aos quais se irmanavam na sua origem laica e na sua paixão pela leitura. No afã em restabelecer a grandeza do passado clássico, abriram academias, como foi o caso da Academia Platônica fundada por Marsílio Ficino sob proteção dos Médici (freqüentada por Angelo Poliziano, Cristoforo Landino e Pico della Mirandola), e também outra em Roma e Nápoles, estas por influência de Basilios Bessarion e Gemistus Pletho, sábios gregos que haviam emigrado para a Itália.
Curiosos, procurando alternativas em diferentes campos do saber ou da sensibilidade, alguns humanistas lançaram-se no aprendizado do hebraico e do árabe para melhor captar as sutilezas dialéticas de um Maimônides, de Avicena ou de Averróis. Outros ainda, para fugir da ortodoxia religiosa sufocante, mergulharam na escrita misteriosa vinda do Oriente, como o fez Marsílio Ficino ao traduzir, além de Platão, o Corpus Hermeticus, tentando com isto decifrar as sibilinas mensagens enviadas pelas divindades pagãs, ou ainda como Pico della Mirândola que se afeiçoou à Cabala judaica.
Recorreram, por vezes, à magia ou o ocultismo, como se deu com Giordano Bruno, ou aos tratados de memória como Ramon Llull e Jacobus Publicius, tudo isto lhes parecendo válido apesar do olhar severo dos padres.

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